Epidemiologia do Tumor de Mama em Cadelas 

Dra. Luciana Oliveira de Oliveira. Médica-Veterinária, Mestre em Cirurgia Veterinária.

Hospital de Clínicas Veterinárias-UFRGS

            As neoplasias mamárias correspondem a cerca de 50% dos tumores das cadelas. A incidência aumenta a partir dos 6 anos de idade. As cadelas apresentam idade média de 9 anos para o surgimento de tumores de mama benignos e de 10 anos para os malignos. Nenhuma predisposição racial é observada. Tumores de mama em cães machos são raros.

Aproximadamente metade dos tumores são malignos, com incidência que pode variar de 36%  a 91,4% de malignidade, sendo a maioria carcinomas. Os tumores benignos mais comuns são os adenomas mamários. O tipo histológico é visto como o principal fator de influência no prognóstico.

O carcinoma inflamatório é raro em cadelas, caracteriza-se por aumento de volume generalizado das glândulas mamárias, edema, temperatura elevada, dor e crescimento rápido. Tem muita facilidade em formar metástases. Cães com carcinoma inflamatório apresentam sobrevida de apenas alguns meses.

Na maioria dos pacientes, as lesões tumorais se constituem de nódulos múltiplos.  Em cadelas com vários nódulos, pode haver tumores benignos e malignos concomitantemente.

            Quanto mais avançado o estágio da doença, maior é o risco de reincidência. A excisão precoce dos tumores de mama, quando apresentam diâmetro máximo menor do que 3cm, leva a uma sobrevida mais alta, independente da malignidade.

            O intervalo entre a identificação do tumor, pelo proprietário, e a apresentação do paciente no HCV-UFRGS, para diagnóstico e tratamento, geralmente é grande. Vários proprietários relatam ter observado o tumor há meses ou anos e buscam atendimento apenas após crescimento excessivo ou ulceração. Neste caso, devem ser consideradas questões sócio-econômicas e a falta de esclarecimento da população sobre este problema. O diagnóstico e tratamento precoce dos tumores de mama proporcionariam um melhor prognóstico para os pacientes, além da redução de custos com o tratamento. Talvez caiba à classe veterinária a responsabilidade sobre um melhor esclarecimento à população.

O desenvolvimento de neoplasia mamária na cadela é dependente, em grande parte, de hormônios. Cadelas castradas antes da puberdade apresentam uma porcentagem muito pequena de tumores de mama (0,5%). A ovariectomia em fêmea impúbere diminui o número de células e bloqueia o desenvolvimento mamário. Já na fêmea adulta, inibe o crescimento de tumores hormônio-dependentes em fase inicial e diminui as displasias mamárias .

Os hormônios estrógeno, progesterona, prolactina e hormônio do crescimento agem em sinergia no desenvolvimento de neoplasias mamárias. O maior efeito destes hormônios sobre o tumor de mama parece ser exercido durante os primeiros anos de vida. As concentrações de receptores de estrógeno e progesterona são detectáveis apenas em estágios iniciais de tumor de mama em cadelas. A concentração de receptores de estrógeno e progesterona diminui com o crescimento do tumor e naqueles de crescimento rápido. As neoplasias malignas possuem menor concentração de receptores hormonais. As neoplasias envolvem com maior freqüência os dois últimos pares de mamas, que possuem maior concentração destes receptores. A maior ocorrência de lesões traumáticas nas glândulas mamárias caudais, pela proximidade com os membros pélvicos, também pode ser influenciar o maior número de tumores nestas mamas.

As pseudocieses parecem estar relacionadas com um aumento, não significativo, no número de neoplasias mamárias. A secreção de leite e a distensão crônica dos ácinos provocam hipóxia, com liberação de radicais livres carcinogênicos. O contato prolongado destes elementos com o epitélio mamário pode aumentar o risco do desenvolvimento de neoplasia mamária.

O uso de progestágenos é associado a um pequeno aumento de tumores de  mama. O papel dos progestágenos como indutores de tumor de mama é controverso. Observa-se um aumento na incidência de tumor após tratamentos prolongados ou com doses altas destes hormônios. A diferença na relação entre tumores benignos e malignos, entretanto, ainda é discutida. Cães tratados com progestágenos apresentam tumores (benignos e malignos) mais precocemente. Relaciona-se ainda o progestágeno agindo mais sobre o crescimento de lesões subclínicas do que sobre a formação de novos nódulos.

A influência da alimentação e da conformação corporal sobre o desenvolvimento de neoplasias mamárias em cadelas está sendo estudada. Relacionando a porcentagem total de calorias provenientes da gordura ou proteína da dieta, a sobrevida é maior para cães recebendo dietas com baixa gordura (menor que 39%) e alta proteína (maior que 27%). Obesidade com um ano de vida e um ano antes do diagnóstico de tumor de mama são significativamente relacionadas com aumento na prevalência de displasias mamárias e de tumores de mama.

Metástases torácicas são diagnosticadas por RX em 10% a 15% das cadelas e são referentes a tumores malignos. O principal local de metástase de tumor de mama é o pulmão. Outras estruturas podem estar envolvidas, como músculos, pele, mediastino, fígado, baço, adrenais, rins, ovários, coração, olhos ou cérebro. Metástases de tumor de mama podem se disseminar pela circulação sangüínea ou linfática. O diagnóstico negativo para metástases significa apenas que metástases não foram identificadas no momento do exame. Focos microscópicos de metástases, não detectáveis, podem estar se desenvolvendo e podem se manifestar mais tarde.

 

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