TRATAMENTO DE MIÍASES CUTÂNEAS EM CÃES COM NITENPYRAN

           Miíase é a invasão de tecidos ou cavidades abertas do organismo animal por larvas de dípteros (1). São consideradas miíases específicas aquelas causadas moscas cujas larvas são parasitas obrigatórios, pois nutrem-se de tecidos vivos. As miíases são divididas em três formas conforme sua localização: cutânea (depósito de ovos de mosca em ulcerações de pele), cavitária (depósito de ovos de moscas nas cavidades nasal, oral, anal, auditiva, orbital, etc.) e intestinal ( por ingestão de larvas em bebidas ou alimentos contaminados) (4).

Nos cães, as miíases são causadas principalmente por moscas da família Cuterebride, principalmente da espécie Dermatobia hominis – que causam uma miíase furunculóide  primária denominada popularmente como “berne” e por moscas da família Calliphoridae, pricipalmente da espécie Cochliomyia hominivorax – que causam uma miíase ou cavitária denominada popularmente como bicheira.

A Cochliomya hominivorax realiza as posturas em ferimentos recentes da pele ou cavidades, cada fêmea colocando até 350 ovos aglomerados,  podendo efetuar várias posturas com intervalos de 3 a 4 dias            . Em condições ótimas de temperatura e umidade do ar, o ciclo evolutivo completa-se em 21 a 23 dias. As larvas possuem enzimas proteolíticas, responsáveis pela digestão dos tecidos do hospedeiro. A lesões aumentam gradativamente e exalam um odor repulsivo. De acordo com a localização da míiase, poderá ocorrer peritonite, claudicação, cegueira, afecções dentárias, etc. Os animais ficam inquietos, deixam de se alimentar e emagrecem. A morte pode ocorrer por toxemia, hemorragia ou infecções bacterianas secundárias(2).

Para o tratamento da miíases cutâneas e cavitárias, são indicados tradicionalmente a limpeza do local, depilação (se necessário), debridamento de tecidos necrosados, remoção das larvas, terapia antimicrobiana local e/ou sistêmica, tratamento local com repelentes e larvicidas e terapia de suporte, se necessário (3).

Os médicos veterinários brasileiros tem utilizado como medicação larvicida prévia a limpeza da miíase a droga nitenpyram (Capstar - Novartis saúde Animal), muito embora tal medicamento não tenha essa indicação pelo fabricante, nem encontra-se relatos de uso ou experimentos disponíveis na literatura médico-veterinária que embasem tal utilização.

O nitenpyram  é indicado para tratamento de rápida ação nas infestações de pulgas em cães e gatos, sendo sua ação iniciada entre 15 a 30 minutos após a administração oral, matando todas as pulgas que estejam no animal em até seis horas. Permanece ativo nos cães por 24 horas e nos gatos por 48 horas. A dose recomendada é de 1 mg/kg por quilo corporal, ou, um comprimido de 11,4 mg para gatos, independente do peso, e um comprimido de 11,4 mg para cães até 11,4 kg e um comprimido de 57 mg para cães acima de 11,4 kg(5).

O nitenpyram é uma droga pertencente ao grupo dos nicotinóides, que agem no sistema nervoso central dos insetos e mamíferos, causando bloqueio pós-sináptico irreversível nos receptores nicotinérgicos da acetilcolina.

O objetivo deste trabalho foi avaliar o uso do nitenpyram como larvicida para larvas de moscas Cochliomya hominivorax em miíases cutâneas e cavitárias em cães atendidos no HCV/UFRGS, utilizando-se a mesma dosagem recomendada pelo fabricante como pulicida.

Foram utilizados 17 cães atendidos na clínica de pequenos animais com diagnóstico de miíase cutânea ou cavitária por larvas de Cochliomyia hominivorax. Os animais foram avaliados clinicamente e foi administrado nitenpyram na dosificação indicada pelo fabricante como pulicida em todos animais, ficando as dosagens assim distribuídas: 3 cães receberam doses entre 1 – 1,50 mg/kg; 5 cães doses entre 1,51 – 2,00 mg/kg; 5 cães doses entre 2,01 – 2,50 mg/kg; 3 cães doses entre 2,51 – 3,00 mg/kg e 1 cão a dose de 3,56 mg/kg. Nenhuma outra medicação foi prescrita ou efetuado qualquer procedimento de limpeza até o retorno. Os animais foram reavaliados em 24 horas para constatação do estado das larvas e da ferida.

Dos 17 animais avaliados, 16 (94,11%) apresentaram, em 24 horas, morte em 100% das larvas encontradas, observando-se uma grande melhora no quadro clínico, com redução da ferida e, em muitos  casos, com diminuição do número de larvas mortas e até ausência total de larvas, que caíram espontaneamente. Em um cão, cujo peso era de 55 kg e foi dado somente um comprimido de 57 mg (1,03 mg/kg), em 24 horas, observou-se ainda presença de larvas vivas. Foi dado então uma segunda dosificação de 57 mg, e em 24 horas, observou-se 100% de lavas mortas.

Nos casos em que foram acompanhados no hospital, observou-se a morte de larvas num período em torno de 6 a 8 horas após administração da medicação. A melhora do quadro clínico da ferida foi visível em 24 horas, em muitos casos, até em períodos menores, com redução do edema, contaminação e tamanho da ferida. A limpeza, somente realizada após 24 horas da administração, foi muito facilitada, não sendo necessário, na maioria dos casos, a anestesia do animal e a resolução do processo foi acelerada.

Este experimento foi baseado unicamente nos quadros clínicos, não sendo realizado contagem, identificação sistemática das larvas, nem medição do tempo de ação do medicamento sobre a morte larval. Não foi realizado também nenhum acompanhamento hematológico ou bioquímico do animal em relação ao efeito da droga. Embora tais estudos mais pormenorizados devam ser realizados, nenhum animal apresentou quaisquer alterações clínicas, não evidenciando sinais de toxicidade da droga nas dosagens utilizadas.

Concluiu-se que o nitenpyram mostrou-se eficaz como larvicida para larvas de moscas Cochliomyia hominivorax em miíases em  94,11 % dos cães estudados, utilizando-se as doses indicadas como pulicida pelo fabricante.

1.        ACHA, P N. & SZYFRES, B. 1986. Zoonoses y enfermidades transmissibles comunes al hombre y a los animales. Washington: Organização Panamerica de la Salud, p. 887-897.

2.        FORTES, E. 1987. Parasitologia Veterinária. Porto Alegre: Sulina, 453 p.

3.        NESBITT, G. H. & ACKERMAN, L. J. 1998. Canine  and  feline dermatology. New Jersey : Veterinary Learning Systems, 

4.    SAMPAIO A.P.S. & RIVITI, E.A. 2001. Dermatologia 2.ed. São Paulo: Artes Médicas,. 1156 p.

5.        Novartis Animal Health INC. Available from: URL: http:// www.novartis. com.br/html/capstar/html.

 Autores:  Mauro Luís da Silva Machado e Eglete Maria Pacheco Rodrigues – Médicos Veterinários do Hospital de Clínicas Veterinárias da UFRGS – email: mauro.vet-ufrgs@bol.com.br